Empresa investigada por ligação com PCC em Paulínia armazenava gasolina adulterada, diz ANP
28/05/2026
(Foto: Reprodução) Operação investiga lavagem de dinheiro em empresas de combustíveis de Paulínia e Rafard
A empresa de armazenagem de combustíveis de Paulínia (SP), alvo nesta quinta-feira (28) de uma operação da Receita e Federal em parceria com o Ministério Público de São Paulo (MPSP) contra a infiltração do PCC no setor de combustíveis, estava com os tanques interditados pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) por armazenamento de gasolina adulterada.
De acordo com a ANP, a Tercom Terminal Armazenagem Combustíveis, onde foi cumprido um mandado de busca e apreensão, e um outro terminal investigado no estado de São Paulo foram bloqueados em fevereiro e abril deste ano depois que foi confirmada a presença de solvente no combustível. À época, houve apreensão de mais de 2,5 milhões de litros do produto.
Segundo informações do MPSP, a empresa de Paulínia, localizada no bairro Cascata, servia de entreoposto no esquema de notas fiscais fraudulentas. A reportagem tenta localizar a defesa para pedir um posicionamento.
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A ANP informou ainda que cinco equipes estão dando apoio nas ações de busca e apreensão realizadas em dois terminais de armazenamento de combustíveis, dois produtores de solventes e uma indústria química, suspeita de desviar solvente para o mercado de combustíveis.
Os técnicos da ANP analisaram a documentação e as capacidades de produção e armazenamento das empresas envolvidas, além de coletar amostras de produtos para análise laboratorial. As ações da ANP ocorrem nos municípios de Arujá, Itupeva, Paulínia, Rafard e Votorantim.
A segunda fase da operação Fluxo Oculto tem como foco revelar que, mesmo após a deflagração da Carbono Oculto, em agosto de 2025, a organização criminosa continuou agindo para lavar dinheiro, adulterar combustíveis e sonegar impostos.
Tercom Terminal Armazenagem Combustíveis, em Paulínia, foi alvo de buscas e apreensão
Jorge Talmon/EPTV
Mandados pelo Brasil
Ao todo, são cumpridos 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Segundo o MPSP, os principais alvos são empresários, operadores logísticos e laranjas, que, segundo a investigação, continuaram atuando mesmo após operações policiais anteriores.
Além do Ministério Público, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo (Sefaz/SP), a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo e as Polícias Militar e Civil também atuam.
Empresa de combustíveis em Paulínia é alvo de operação contra lavagem de dinheiro do PCC
Polícia Civil/Divulgação
Como o PCC aparece no esquema
O PCC aparece na investigação como beneficiário indireto das movimentações financeiras, integrante do mesmo ecossistema financeiro ilegal, usuário das mesmas fintechs para lavagem, ocultação de recursos e circulação de dinheiro ilegal. Isso é o que o MP chama de: “convergência criminal” (compartilhamento de estrutura entre grupos).
Instituições usadas pelo grupo também atendem PCC: SISPAY / VPAY: têm histórico de fraudes e vínculos com PCC).
Empresas do esquema movimentam dinheiro ligado ao PCC: fluxos financeiros identificados entre fintechs, empresas do grupo e estruturas associadas ao PCC.
Conexão direta por pessoas: Ricardo Romano, apontado como ligado ao PCC dentro da estrutura financeira.
Delação rejeitada
A investigação mostrou que o esquema, liderado por Mohamad Hussein Mourad (o "Primo") e Roberto Augusto Leme da Silva (o "Beto Louco") manteve a lavagem de dinheiro por meio de fintechs, alterando empresas e quadros societários para continuar ocultando patrimônio da adulteração de combustíveis e sonegação de impostos, e mantendo conexões com o PCC.
Os dois estão foragidos desde agosto do ano passado, mas em decorrência da Operação Tank, deflagrada pela Polícia Federal no mesmo dia da Carbono Oculto.
Eles tentaram fechar um acordo de delação premiada com o MP de São Paulo, mas a proposta foi rejeitada pelos promotores. Para o MP, os empresários omitiram informações sobre lavagem de dinheiro, conexões do esquema com o PCC e corrupção policial.
Os relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas e suspeitas de quase R$ 4 bilhões e que o uso de fintechs e plataformas de pagamento funcionaram como “dutos financeiros” do grupo. Sobre a operação desta quinta, a defesa dos empresários disse que não vai se manifestar porque ainda não tomou conhecimento da investigação.
Os relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas e suspeitas de quase R$ 4 bilhões e que o uso de fintechs e plataformas de pagamento funcionaram como “dutos financeiros” do grupo.
Sobre a operação desta quinta, a defesa dos empresários disse que não vai se manifestar porque ainda não tomou conhecimento da investigação.
Beto Louco e Mohamad Hussein Mourad, ambos foragidos, apresentaram material que aponta o pagamento de propina de R$ 400 milhões a políticos e autoridades.
Montagem/g1
Máfia do nafta
Em outras duas frentes de atuação na operação desta quinta-feira, os agentes cumprem mandados contra empresas e pessoas que atuavam na “máfia do nafta” e adulteração de combustíveis.
O grupo usava empresas de solventes petroquímicos importados, que possuem tributação muito inferior, para serem vendidos ilegalmente como gasolina automotiva.
O prejuízo com a sonegação fiscal é estimado em mais de R$ 200 milhões na diferença tributária contabilizada.
Esta fase está dividida em três frentes. Veja abaixo.
FRENTE 1: Engenharia financeira e lavagem de capitais via fintechs
Esta frente atua como o "duto financeiro" da organização criminosa liderada por "Primo" e "Beto Louco", viabilizando a ocultação do patrimônio bilionário e mantendo conexões com o PCC.
Modus Operandi: o grupo usa instituições de pagamento para lavar dinheiro, valendo-se do modelo de "contas-bolsão" e "contas gráficas". Os recursos de dezenas de postos de combustíveis da organização são depositados em uma única conta bancária sob o CNPJ da fintech ("conta-bolsão").
A separação de quem é o dono do dinheiro ocorre apenas no sistema interno da fintech ("conta gráfica"), criando um ponto cego (camada de ocultação) que impede o Banco Central e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) de rastrearem a origem, o destino e os reais titulares dos recursos. Quando o esquema sofre fiscalização, a organização migra rapidamente os recursos de uma fintech para outra.
Pessoas e Empresas Envolvidas:
Lideranças e Operadores: Mohamad Hussein Mourad e "Beto Louco" (líderes), Lucas Tomé Assunção (gerente contábil do grupo).
Fintechs e seus Gestores: BK Bank, Ceopag (ligada a Kawel Rodrigo Lotti), Sispay (Marcelo Artur Motta Ramos Marques e Vera Lucia Teixeira), Vpay, Yaw e Smart Solutions Group.
Conexões com o PCC: a Yaw interligou-se ao esquema via Shelby Holdings, empresa atrelada a Ricardo Romano (investigado por ligações com o PCC). A Sispay revelou vínculos com Luiz Sérgio Ferreira da Mota, alvo de operações anteriores contra a máfia dos ônibus ligada à mesma facção.
Valores Movimentados:
A Smart Solutions Group movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, sendo cerca de metade unicamente para a GGX Global (holding de postos do grupo criminoso).
A Ceopag registrou movimentações atípicas em curtíssimo prazo de R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos.
No total consolidado, relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas de sujeitos obrigados na ordem de R$ 3,86 bilhões.
FRENTE 2: A máfia do nafta e adulteração de combustíveis
Esta frente expõe a fraude física e tributária: o desvio de solventes petroquímicos importados (NAFTA), que possuem tributação muito inferior, para serem vendidos ilegalmente como gasolina automotiva.
Modus Operandi: produtoras e importadoras de solventes emitem milhares de notas fiscais falsas ("espelho") atestando a venda de NAFTA para empresas químicas de fachada. Essas falsas indústrias químicas são registradas em nome de "laranjas" (frequentemente pessoas vulneráveis ou beneficiárias de programas sociais) em endereços fictícios.
Na realidade, o produto físico nunca chega a essas empresas; os caminhões desviam a rota e descarregam o NAFTA diretamente em distribuidoras e terminais terrestres, onde o solvente é misturado à Gasolina Tipo A. O combustível adulterado é, então, revendido aos consumidores finais nos postos.
Pessoas e Empresas Envolvidas:
Núcleo de Comando e Produtoras: Raffaele Vestenius Masi e Aldo Antônio Masi (titulares e gestores de fato da produtora Petrodansk), auxiliados por João Eduardo de Albuquerque (gestor operacional). A empresa SMAX também emite notas para a fraude.
Logística e Laranjas: Ítalo Giovanni Bergamo (coordenador do recrutamento de laranjas e emissão de conhecimentos de transporte), Igor de Souza Amorim e Gilmar Amorim (logística). Michele Gomes Vieira Silva e Simone Alves de Oliveira atuaram abrindo dezenas de empresas de fachada (como MGK, Zurk, Kore Transportes).
Distribuidoras e Terminais (Destino real): Distribuidora Saara, Petroriente Distribuidora e os terminais terrestres Tercom (Paulínia) e Arujá Terminais.
Valores e Volumes Identificados:
Desvio comprovado de mais de 135 milhões de litros de Nafta em pouco mais de dois anos.
Apenas a Petrodansk emitiu mais de 10.076 notas fiscais falsas, totalizando R$ 1,49 bilhão.
O prejuízo com a sonegação fiscal é estimado em mais de R$ 200 milhões na diferença tributária auferida.
FRENTE 3: Ocultação patrimonial via fundos de investimentos (FIDCs)
Como complemento direto da Máfia do NAFTA, o grupo utiliza o mercado financeiro formal para liquidar as operações fraudulentas e mascarar os beneficiários do lucro da adulteração.
Modus Operandi: para que o dinheiro da gasolina adulterada retorne de forma "limpa" para as produtoras (Petrodansk/SMAX), as empresas-fantasma emitem boletos. Quem paga esses boletos são Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP). Contudo, as cessões ocorrem sem deságio (sem desconto) e com prazos curtíssimos (às vezes de 1 dia), o que subverte a lógica do mercado financeiro e prova que a transação é fictícia.
Esses fundos são "fechados", possuindo apenas um ou dois cotistas, funcionando exclusivamente como uma camada final de lavagem de dinheiro (layering) para pagar faturas ilícitas.
Pessoas e Empresas Envolvidas:
Fundos: Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global.
Gestores/Beneficiários: Guilherme Mourão Vaz (Diretor da Actual DTVM/Gran Capital), Edward Bertelli Júnior (Libertas Asset), Luis Roberto Zaratin Soares (Ello Gestora). Na ponta dos beneficiários, figuram Gledson Pacheco e Antônio Correa de Freitas Junior (que operam a Nova Rubília Instituição de Pagamento e a distribuidora Saara), e Guilherme Ali de Paula (Pix Card / Atena FIP).
A defesa deles não foi localizada.
Valores Identificados:
Para o bloqueio de bens (confisco), a operação mirou o patrimônio líquido dos fundos que serviam de duto: R$ 85 milhões (Zeus), R$ 72 milhões (Gran Capital) e R$ 47 milhões (DB Crédito Global).
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