Advogado é preso após vítima denunciar ameaças em caso de PM suspeito de estupro na AM-010
19/05/2026
(Foto: Reprodução) Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM) Centro-Sul
Erlon Rodrigues/PC-AM
A Polícia Civil do Amazonas prendeu o advogado Matheus de Souza Ferreira suspeito de ameaçar e coagir Tainara Soares, de 25 anos, vítima de estupro em um posto policial na rodovia AM-010. O homem se entregou à polícia na noite de segunda-feira (18) e é investigado por tentar intimidar a vítima para que desistisse do processo contra o policial militar Osvaldo Lima da Silva, que já está preso preventivamente pelo crime.
Segundo a investigação, o advogado e Kamila Fernanda Alves de Almeida, ex-companheira do policial, atraíram Tainara tentaram pressioná-la a mudar o depoimento. Kamila está sendo procurada pela polícia. O g1 tenta localizar a defesa de Matheus de Souza.
De acordo com a delegada Patrícia Leão, da Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher (DECCM) Centro-Sul, uma mulher se passou por integrante da Procuradoria da Mulher da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) para convencer Tainara a entrar no veículo.
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"Uma mulher, que também já conseguimos identificar e que também era advogada, se passou pela Procuradoria da Mulher da Assembleia Legislativa do Amazonas com o objetivo único de atrair essa vítima", afirmou.
Tenente da PM é preso suspeito por estupro em Manaus
Segundo a delegada, o grupo queria pressionar Tainara a mudar o depoimento. A polícia informou ainda que Kamila entrou no carro durante o trajeto e passou a ameaçar a vítima.
"Essa mulher passou a ameaçar, intimidar e coagir a vítima para que ela mudasse todo o seu depoimento para beneficiar seu ex-companheiro", afirmou Patrícia Leão.
A Polícia Civil pediu a prisão preventiva dos envolvidos. O ase apresentou espontaneamente na delegacia na noite de segunda-feira (18), teve a prisão cumprida e passou por audiência de custódia nesta terça-feira (19), quando a Justiça decidiu manter a prisão.
Já Kamila Fernanda Alves de Almeida é considerada foragida e segue sendo procurada pela polícia.
Os investigados podem responder pelos crimes de organização criminosa, ameaça, coação no curso do processo, falsa identidade, sequestro e cárcere privado.
Por meio de nota, a OAB Amazonas informou que a Comissão de Prerrogativas ainda não foi oficialmente comunicada sobre a prisão do advogado Matheus de Souza Ferreira.
"A Seccional esclarece que, assim que houver o devido acionamento e acesso formal às informações do caso, irá apurar os fatos e adotar as medidas necessárias dentro das atribuições institucionais da Ordem", acrescentou.
Vítima relata ameaças
Vítima denunciou coação em entrevista coletiva no fim de abril deste ano.
Matheus Rodrigues/Aleam
Após denunciar o estupro, Tainara afirmou que recebeu uma ligação de uma mulher que se apresentou como integrante da Procuradoria Especial da Mulher da Aleam e ofereceu ajuda financeira. Em seguida, ela entrou em um carro para buscar o filho, mas, segundo a vítima, passou a ser intimidada durante o trajeto.
Tainara contou que Kamila Fernanda Alves de Almeida entrou no veículo e começou a ameaçá-la para que mudasse o depoimento sobre o caso.
"Comecei a chorar, me desesperar e pensei: eu vou morrer hoje", relatou a vítima em entrevista coletiva concedida no dia 27 de abril.
Denúncias
O tenente é investigado em dois processos. Um deles é o caso de Tainara Soares, ocorrido no dia 6 de abril, na rodovia AM-010. Segundo a vítima, ela estava de moto com um grupo de amigos quando foi abordada por policiais militares.
O tenente mandou que ela entrasse na viatura sozinha e disse que iria levá-la até o posto de fiscalização da barreira do bairro Lago Azul, que dá acesso à rodovia AM-010, porque a moto seria roubada, o que era mentira. O estupro aconteceu dentro de uma das salas.
Vítima de estupro cometido por tenente da Polícia Militar em Manaus.
Paulo Roberto Santos/ Rede Amazônica
Outra denúncia foi feita por uma ex-enteada do militar, hoje com 17 anos. À Rede Amazônica, ela relatou que os abusos começaram quando tinha oito anos de idade.
Segundo o relato, o primeiro abuso aconteceu à noite, após dormir na mesma cama que a mãe e o tenente. Osvaldo apalpou a menina enquanto a mãe dormia ao lado, forçou a criança a tocar sua genitália e disse que a mataria, junto com a família, caso ela contasse a alguém.
A denúncia foi formalizada em 2020, quando ela tinha entre 12 e 13 anos, com apoio do pai e da avó paterna. A jovem afirmou ter desenvolvido depressão, ansiedade, fobia social e transtorno bipolar. Relatou três tentativas de suicídio e uso contínuo de medicação controlada.
Dias antes da entrevista, a adolescente havia recebido alta hospitalar após uma nova tentativa. "Ele destruiu a minha vida por completo", disse. Pelo caso, Osvaldo Lima da Silva já havia sido denunciado pelo Ministério Público em 2025.
O que disse a defesa
Após a prisão, a defesa do tenente negou as acusações, por meio de nota. Os advogados afirmaram que há contradições nos depoimentos da vítima e de testemunhas, que, segundo eles, serão esclarecidas ao longo do processo.
A defesa também destacou que o militar se apresentou espontaneamente à delegacia, prestou depoimento e autorizou a coleta de DNA, mesmo sem obrigação legal. Segundo os advogados, a medida demonstra confiança na inocência dele.
Ainda conforme a nota, a defesa aguarda a inclusão de novas provas, como imagens. Os advogados argumentam que o laudo pericial confirma apenas a ocorrência de relação sexual, o que, segundo eles, não caracteriza estupro. A defesa também cita que a vítima teria relatado uma relação consensual anterior, que poderia explicar os vestígios encontrados.
A defesa informou ainda que não iria se manifestar sobre a denúncia feita pela jovem de 17 anos.
A Polícia Militar do Amazonas (PMAM) informou que o agente segue preso no Núcleo Prisional da corporação, por determinação judicial. Ele já foi ouvido pela equipe do 26º Distrito Integrado de Polícia (DIP), responsável pelas investigações.
Paralelamente, foi instaurado um Inquérito Policial Militar pela Diretoria de Justiça e Disciplina da PMAM. O procedimento acompanha o inquérito conduzido pela Polícia Civil do Amazonas (PC-AM).
Tenente da PM é preso suspeito de estuprar mulher dentro de posto de fiscalização policial na AM-010
Reprodução/Redes Sociais